11 de fevereiro de 2011

Entrevista à psicóloga do CAO

1- Sempre pensou em vir ser psicóloga?
“Sim, desde muito nova. É uma profissão que gosto muito, é muito gratificante do ponto de vista pessoal e profissional. É preciso ter algum estofo emocional, principalmente na área da deficiência.”

2- Pelo que já vimos desta instituição é bastante boa e para nós parece ser gratificante trabalhar com pessoas especiais como estas. É este o local ideal para exercer a sua profissão?
“Na nossa formação base não temos muito bem a percepção do que é a deficiência em si, só depois de fazermos diversos trabalhos – Mas era uma área que já me aliciava bastante.”

3- Acha que qualquer pessoa formada em Psicologia aguentaria trabalhar num ambiente tão emocionalmente forte?
“Penso que é preciso, realmente, as pessoas estarem sensibilizadas que isto não é como trabalhar com crianças ou adultos ditos normais. À partida, são pessoas que requerem muita mais atenção, compreensão…
Eu penso que é uma questão que depende muito do gosto pessoal. Depois, são as afinidades que uma pessoa vai criando porque por enquanto que uma pessoa quando está a trabalhar numa escola, as crianças vão sempre rodando, ao fim de 5 ou 6 anos vão embora e têm o seu percurso… aqui não. Nós estamos com eles continuamente, vemo-los crescer, adoecer, acompanhamos as famílias e do ponto de vista emocional e pessoal, envolve-se muito mais. É muito bom. Tem de se gerir muito bem as emoções, mas à medida que uma pessoa começa a trabalhar, começa a entrar nesta dinâmica.”

4- Como é trabalhar com portadores de Trissomia 21?
“Acima de tudo é preciso compreendê-los, perceber o que eles são, o que eles gostam, entender o seu perfil e tudo isto ajuda-nos a lidar com eles. À medida que vamos convivendo com eles, arranjamos outras formas de comunicar como a expressão facial, linguagem textual, etc… Mas não considero que seja difícil, nós é que precisamos de ultrapassar as dificuldades de trabalhar com estas pessoas especiais.”

5- Como é que eles encaram as situações do dia-a-dia?
“Os portadores de Trissomia 21 que têm um quadro mais complexo e com maiores particularidades, são utentes que não têm percepção do meio envolvente, eles vivem como se fosse o nosso mundo imaginário. Gostam de estar no mundo deles, fazer a sua rotina. São pessoas muito carinhosas, gostam de receber afecto mas acima de tudo dar e é importante que estejamos receptivos a fazê-lo.”

6- E como é que respondem às várias actividades e iniciativas propostas pela instituição? 
 “Eles fazem vários tipos de actividades como arraiolos, bordados, tear. Temos um que adora pintar, pinta com muita perfeição e é de salientar a sua perícia na utilização da boca para a pintura. É capaz de ficar nos intervalos a pintar e temos de respeitar esse espaço. Quando são empenhados e dedicados são muito bons nas tarefas.
Temos que saber gerir as actividades conforme as capacidades de cada um pois faz-lhe muita confusão se pedirmos uma coisa mais complexa. Os utentes que são acompanhados desde pequenos têm mais facilidade do que aqueles que chegam aqui com uma idade adulta. É muito gratificante e ficam muito orgulhosos quando vêem as suas tarefas finalizadas.”   
   
7- Já reparamos que os Autistas são pessoas muito especiais e difíceis. Como é que se lida com um Autista?
“Nós aqui temos autistas muito profundos e de várias idades. Têm rotinas que devem e teimam cumprir se são quebradas eles têm alterações de humor. É por isso que quando se trabalha com um autista, é importante que se faça as regras como eles estão habituados: chegam à instituição, vão para a sala, põe a bata, ficam no seu espaço… Se têm preferência por algum objecto não os devemos contrariar…
As suas estereotipias são as mais variadas possíveis. Nenhum autista é igual a outro, independentemente do seu grau ser o mesmo (leve, médio, elevado). Neste caso, os nossos autistas não comunicam mas há autistas que têm óptima comunicação verbal. Também há autistas que têm gosto por diversos tipos de artes, embora os nossos não realizem qualquer tipo de actividades porque são muito profundos. Estão sempre no seu canto, sossegados, balançam o tronco, têm fixação por objectos, auto - mutilam-se…”

8- Como é a relação deles com a família?
“ Alguns têm os familiares presentes e têm possibilidades, por isso vão para casa todos os dias. Há outros que não têm os familiares presentes e ficam aqui.
Mas nós tentamos sempre incentivar os pais a estar presentes e a acompanha-los.”

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